quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Sorria para mim.


Ela acordou não muito animada naquela manhã, levantou-se e tomou um banho. Sentiu a água quente escorrer pelo seu corpo esperando que aquela sensação lhe desse a sensação de forças para continuar o dia.

Ele acordou e se revirou na cama. O cachorro lambeu-lhe o rosto e ele resmungou. Levantou e foi até a cozinha. Ele tomaria um café, não muito doce nem muito quente. Dissolvido na água, meio sem gosto. Era tudo que precisaria para enfrentar mais aquele dia.

Ela jogou a décima peça de roupa sobre a cama. Tinha que parecer bem, ao menos para ganhar uma promoção e subir alguns degraus na carreira. Chorou a noite passada por comer um miojo aguado junto com seu gato de estimação e assistir a um filme romântico.

Ele jogou mais aquela caneca suja na pilha de louças que tinha para lavar. Separou alguns papéis que julgou importante e colocou em sua pasta. A roupa era a mesma de ontem, que era a mesma de anteontem. Afinal, ninguém iria reparar nele, em como estava seu cabelo ou sua barba. 

Ela acariciou o gato após dar-lhe comida, pegou as chaves e saiu. No caminho para o trabalho retocou a maquiagem, se estressou no trânsito e quase atropelou uma bicicleta.

Ele foi até o que tinha para chamar de trabalho, pegou a correspondência dos edifícios comerciais, "reino das chatisses" como preferia chamar, e saiu logo de manhã com sua bicicleta. Sentia o vento gélido contra a pele suja e oleosa por pura preguiça. Ele gritou com a louca que quase o atropelara.

Ela correu para a reunião que estava atrasada.

Ele deixou a bicicleta na portaria e subiu.

Ela se decepcionou ao ter seu projeto reprovado e saiu da sala cabisbaixa.

Ele se atrapalhou com todos aqueles papéis.

E ali, naquele segundo, o mundo dele e o mundo dela, tão dele e tão dela, se chocaram ombro a ombro. Eles se olharam. Ninguém disse nada por um bom momento. Ele recuperou os papéis e, ela, a postura. Eles se reconheceram. 

"Eu deveria me desculpar por hoje de manhã. Deveria ter prestado mais atenção, deveria não ter gritado com você", ela disse envergonhada.

"Você deveria sorrir pra mim", ele sorriu.                                  Ela sorriu.

Os olhares eram intensamente curiosos, incomodavam. 

"Gostaria de tomar um café amanhã?", ele propôs. Nervoso.

"Eu não tomo café", seu sorriso era infantil.

"Eu não sei fazer café, para ser sincero", ele deu de ombros e saiu. Foi em direção ao elevador.  Ela o seguiu. 

"Mas, você vai... Assim? Agora? Vai se esquecer do café amanhã. Eu devo ter dar meu telefone?"

"Eu não vou esquecer. Não tenho um telefone, muito menos um celular. Eu tenho a memória desse sorriso tão incomum, infantil. Eu voltaria todas as manhãs por ele."

Ele entrou no elevador. Saiu.

Ela, apenas, sorriu.