terça-feira, 5 de março de 2013

O grito de Sharon

 Saí correndo, já estou longe de um lugar que jamais quero ver de novo. Sigo pela avenida principal, depois por uma ruazinha escura, buscando por um lugar seguro e escondido de tudo o que temo, um lugar onde eu possa deitar e chorar, procurando uma forma de esquecer tudo o que acabei de ver. Estou completamente sem fôlego, se ainda consigo correr é porque já não sinto o chão sob meus pés, nem meus pulmões em meu peito. Cheguei. A porta está aberta, subo a escada, entro num quarto mergulhado na penumbra. Meu Deus?! Como esquecerei aquela cena macabra? Foi minha culpa? O que poderia ter sido feito? Ah, pomba! Tantas perguntas e nenhum rastro de respostas!
   Quanto mais tento encontrar respostas, mais minha mente se afunda, como um grande abismo sem fim. Ligo o rádio e me sento na cama, o que me fez relaxar foi a música de Janis Joplin. Ah, rainha. Diva. Meus batimentos finalmente diminuem. Olho para baixo, ainda tenho sangue nas mãos. Sangue daquela frágil criatura, que suplicou por ajuda até seu último suspiro. A única certeza que tenho é que, nesse momento, não há ninguém mais sujo do que eu. A mais horrenda e abominável sujeira: o sangue de uma pessoa inocente.
   Ouço a fita que Paulo gravou para mim. Ah Paulo, como eu o amo. Alguém sobe pelas escadas sim, sim é ele! Acaricia meu rosto e se deita, eu fico admirando-o e pensando como é lindo o meu amor. Ele acende um cigarro e, olhando distante, para cima diz: “Está tudo acabado, Coelha, agora ficaremos em paz”. Nunca tive tamanha experiência de vida ou morte. Paulo retira de seu bolso um “cigarro de verdade”! Feito da mais pura Ma. Ah, pomba, não há amiga mais fiel que Ma. Acendo-o e, na primeira tragada, já sinto a paz permeando em mim. Paulo por que você fez isso? Não me respondeu, apenas riu, deu gargalhadas, mas não fiquei brava, acompanhei com ele o ritmo fenomenal de nossas orquestras, feitas de nossas gargantas.
   Quer saber o que aconteceu, porco capitalista? Sem problemas, eu conto, mesmo porque ano que vem terei vida nova! Dinheiro, fortuna! E nada mais dessa antiga vida.
   Paulo me jurou amor eterno. Mas a filha que ele cuida, pois a mãe sumiu no mundo, ocupa muito tempo dele. Ele quase não tem tempo para nós dois. Então decidimos acabar com isso. Paulo sabia que ela teria uma vida melhor no Paraíso, afinal se chama Paraíso, não é? Sem violência, sem armas… Paulo me levou com ele. Nós cinco fomos buscar a menina na escola: Paulo, Sharon, Ma, Janis e eu. Nós a levamos para um beco escuro, no toca-fitas do carro Janis nunca cantou tão alto; Ma evaporava pelo ar sujo e poluído da cidade, Paulo e eu nos olhamos e, por fim, Sharon acabou com tudo, depois de um estouro ernorme lá estávamos prontos para uma nova vida.
   Ah pomba, pomba! Fiquei com medo na hora, mas agora mais calma, me lembro que ano que vem, ano que vem… Tudo será diferente.



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